27 de set de 2012

CERCA DE 90% DAS PESSOAS QUE TÊM COLESTEROL ALTO FAMILIAR NÃO SABEM QUE SÃO PORTADORAS DA DOENÇA

Existem no Brasil até 400.000 pessoas com colesterol alto de origem genética, mal que pode levar ao infarto e ao AVC antes dos 50 anos de idade. O mais alarmante: somente 10% delas sabem que estão doentes. Incor faz, nesta sexta-feira (28), campanha de alerta à população e de identificação de casos para tratamento.

“É uma doença mascarada. Se você não prestar atenção, ela passa e te pega. Não sabia que existia uma doença genética relacionada ao colesterol”, conta Natércia da Silva (35), enfermeira que descobriu por acaso, somente há alguns meses, que era portadora de hipercolesterolemia familiar (HF). Como não apresentava colesterol muito alto, ela só descobriu que tinha HF depois que sua mãe foi diagnosticada com a doença no Incor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP), graças ao Programa de Rastreamento Genético de Hipercolesterolemia Familiar, o Hipercol Brasil. A partir da constatação do problema de sua mãe, outras pessoas da família fizeram o exame genético. Resultado: entre as cinco irmãs, só Natércia tinha a doença, que também se manifestou em uma das suas três tias por parte de mãe. E o filho de Natércia, de 16 anos, também passa por exame no Incor. Ele apresenta colesterol alto desde pequeno e há grande probabilidade de que ele também tenha a HF.

Agora, contudo, o diagnóstico adequado da hipercolesterolemia familiar vai mudar a história da família de Natércia. “Com o tratamento correto, é possível retardar de 10 a 30 anos a mortalidade em pessoas com esse mal, com melhora substancial de sua qualidade de vida, já que elas terão menos eventos cardiovasculares ao longo dos anos”, explica o cardiologista do Incor Dr. Raul dos Santos Filho, coordenador do Hipercol.

Infelizmente, cerca de 360.000 brasileiros – aqueles 90% que sequer imaginam que têm a doença – não se beneficiarão dessa possibilidade que lhes abre um diagnóstico correto para a HF, por ignorarem a sua condição metabólica. É bem provável que uma parte deles passará anos indo de médico em médico sem ter solução para seu colesterol alto. Nesse meio tempo, o processo de aterosclerose no seu organismo, acelerado desde o nascimento, irá evoluir mais rapidamente que o comum, aumentando de 10 a 20 vezes o risco de obstruções nas veias e artérias do coração (infarto) e do cérebro (acidente vascular cerebral).

Foi assim que aconteceu com o consultor de internet Luiz Antonio Nascimento (49), que já teve três infartos, o último no ano passado. Mesmo com histórico de HF na família há gerações – seu avô materno, seu pai e sua irmã, com apenas 27 anos, morreram de problemas cardíacos -, Luiz acreditava ser um homem saudável.

Magro e sem nenhuma queixa aparente, ele foi surpreendido pelo primeiro infarto aos 34 anos, por causa do colesterol alto. “Passado o susto, relaxei e aos 42 anos tive outro infarto”, conta ele, que, só então, teve o diagnóstico de HF. Com o reconhecimento tardio da doença, ele não pode evitar o terceiro e mais grave infarto, em 2011, que o levou a receber dois stentes para desobstrução de artérias do seu coração. Por isso, aconselha: “façam exercício, controlem a alimentação e realizem um check-up periódico, pois essa é uma doença silenciosa, que pode ser fatal”.

Assim como outras 500 pessoas, a família de Luiz Antonio, que é solteiro e não tem filhos, está sendo monitorada pelo Programa de Rastreamento Genético de Hipercolesterolemia Familiar do Incor, o Hipercol Brasil. Outras 100 famílias, como a da enfermeira Netércia, já têm o diagnóstico fechado e fazem acompanhamento no Incor.

Mas é preciso fazer muito mais. Por isso, o Instituto do Coração realiza nesta sexta-feira (28), das 9h às 15h, campanha gratuita e aberta à população para orientação e detecção precoce de colesterol alto de origem familiar. Não há restrição de idade para participar. Serão atendidas desde crianças até idosos, de ambos os sexos, mediante a distribuição de 500 senhas.

EM SÃO PAULO E NO BRASIL TODO

A ação da equipe do Incor na campanha desta sexta-feira consistirá na medição do nível de colesterol total no sangue, cujo resultado sairá na hora, seguida de orientações de nutricionista e distribuição de folhetos educacionais para prevenção e controle do colesterol alto.

Durante a campanha, pessoas que forem diagnosticadas com nível de colesterol compatível com hipercolesterolemia familiar – colesterol total acima de 270 mg/dl -, serão encaminhadas para a rede pública para exame de medição de colesterol fracionado (colesterol total, LDL, HDL, triglicérides).

Aqueles cujo exame constatar LDL acima de 210 mg/dl, e ao mesmo tempo tiverem histórico da doença cardiovascular na família, serão convidados a realizar o exame genético no Instituto do Coração. Em caso positivo, iniciarão o tratamento no próprio Incor. A equipe do Hipercol também convidará seus familiares para a realização do exame, já que o risco da incidência da doença em outros familiares é de 50%.

O exame genético também pode ser feito à distância, para aquelas pessoas que estão em outras cidades ou estados. Para tanto, é enviado um kit exclusivo do Hipercol para coleta de sangue, com orientações de como fazer o processo, acompanhadas de um termo de autorização e de um questionário para levantamento de informações do paciente e de seu histórico familiar de doença cardíaca.

Um lote de 47 kites como este foram enviados nos últimos três meses, pelo correio, para diversas cidades do interior e São Paulo e também de outros estado brasileiros – Rio Grande do Sul, Belo Horizonte, Bahia e Manaus, entre outros. Sete pessoas de um grupo de 12 exames que já foram analisados tiveram o diagnóstico de HP. Elas poderão fazer seu tratamento no próprio Incor ou, se preferirem, com seu médico – que, neste caso, poderá basear o tratamento na I Diretriz Brasileira de Hipercolesterolemia Familiar, recém-formulada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), com forte participação dos especialistas do Hipercol.

O Hipercol Brasil foi criado em 2009, com a ambiciosa meta de diagnosticar e tratar, direta ou indiretamente, toda a população brasileira vítima da hipercolesterolemia familiar, mal que acomete 1 em cada 500 habitantes. O programa mantém um site para a população com informações sobre como identificar a hipercolesterolemia familiar e contato com a equipe do Incor hipercolbrasil@incor.usp.br e telefone 11- 2661-5329.

O Hipercol Incor tem apoio do Ministério da Saúde e empresas parcerias, como o Hospital Samaritano e o Laboratório Genzyme, do Grupo Sanofi. Em âmbito internacional, mantêm cooperação com outros dos poucos centros que referência em HF no mundo: Fundación Hipercolesterolemia Familiar, na Espanha; Academisch Centrum, na Holanda; e organismo internacional da especialidade, a International FH Foundation.

O Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Incor é o único do país a realizar diagnóstico de hipercolesterolemia familiar.

COMO TRATAR O COLESTEROL

O colesterol alto está comumente associado a maus hábitos alimentares, à falta de atividade física e a fatores diversos, como disfunção hormonal e obesidade. Nesses casos, geralmente a administração de estatinas (em média, 10 mg), associada à dieta de baixo colesterol e à prática de atividade física costuma equilibrar os níveis de colesterol no sangue.

Na hipercolesterolemia familiar, contudo, o tratamento medicamentoso tem que ser mais agressivo para dar resultado. A terapia clássica nesses casos inclui estatinas em doses maiores (40 mg ou mais) associadas a outro medicamento, o ezetimibe. A adesão à dieta alimentar de baixo colesterol deve ser total, assim como a prática de atividades físicas regulares.

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